Fui rejeitada pelo Google. Ainda assim, foi uma das melhores coisas que já me aconteceu

Photo by Mitchell Luo on Unsplash

Em dia desses apareceu no meu e-mail uma mensagem curiosa propondo uma chamada para falar sobre uma vaga em aberto para o Google. Num primeiro momento achei que era “spam/scam”, pois aquilo parecia muito longe da minha realidade. Por que o *f*ck*ng* Google iria me mandar um e-mail?

Mesmo sem acreditar fiz alguma pesquisa sobre a remetente e agendei um horário. Não é que era verdade mesmo? A pessoa explicou que a vaga era para Software Engineer em Tokyo e perguntou se eu estaria disposta a me mudar. Nem precisei pensar muito: “Eu vou para quase qualquer lugar pelo Google!

Dito isso, ela me enviou uma série de links sobre o que eu deveria estudar, cursos que eu deveria fazer, algoritmos que eu deveria aprender, “soft skills” importantes, livros para ler e uma série de vídeos sobre como o Google entrevista e contrata.

Comecei então um processo que durou 6 meses, onde tive uma série de entrevistas/ligações:

  • Uma pré-entrevista com perguntas sobre conceitos de Ciência da Computação.
  • Uma ligação com uma “Google Champion” para dar dicas e contar como foi para ela.
  • Uma “coding interview” (onde eu tive um “brain freeze” e mal consegui escrever um “if”)
  • Uma ligação com o retorno sobre o que fiz bem e o que fiz mal.
  • Mais uma “coding interview”.
  • Uma ligação final para dizer que *spoiler alert* eu não havia passado para a próxima etapa. :(

Óbvio que caí num choro desesperado naquele momento. O Google (ou outra gigante da tecnologia como Facebook, Amazon, Netflix e Microsoft) sempre foi o sonho da adolescente de 16 anos que aprendeu a programar que ainda vive em mim.

Doeu. Me dediquei muito para aquele processo. Me senti uma farsa, uma inútil. Só o que me passava pela cabeça era como eu pude ser tão delirante a ponto de achar que eu poderia mesmo entrar para o Google? Eu não sou brilhante, não sou destacada. Eu nunca tive chance, afinal o que eu aprendi de relevante e diferenciado nos 17 anos de TI trabalhando em uma cidade do interior que só permite programar para “ERP”s?

Elaborado o luto e passado o momento de auto piedade, pude digerir melhor a situação. É verdade que até há pouco tempo atrás eu não saberia dizer o que é uma Big O Notation, nem qual tipo de árvore binária o Java implementa internamente nas suas estruturas de dados, nem para o que serve o algoritmo de Dijkstra. Eu não aprendi isso na faculdade. Mas adivinha só: eu nunca precisei disso e quando precisei, fui capaz de aprender.

Me permiti tentar entender e valorizar a experiência pela qual passei. É muito difícil se quer ser chamado para uma entrevista no Google e eu tive esse privilégio! Foram muitos meses de stress, onde eu abri mão de muitas coisas para me dedicar a isso e falhar, mas saí dali com uma bagagem de conhecimento que não teria, não fosse esse empurrão. Provavelmente eu teria usado esse tempo em algo não produtivo como Netflix ou no Instagram. (Sei que ócio e lazer são importantes, mas a questão é que eu teria feito só isso).

Talvez seja papo de perdedor, talvez seja maturidade para encarar minhas falhas e fraquezas… Fato é que conclui que eu (e todo mudo) preciso olhar com mais carinho para a caminhada e tudo de bom que vem com ela e não só focar no objetivo final.

Essa jornada me “acordou”. Passei a produzir mais, estudar mais, acreditar mais em mim. As ambições de adolescente que estavam encaixotadas porque a “adulta” achou que não tinha a menor chance reapareceram com toda força.

Dói não realizar um sonho, mas se não fosse esse processo, ainda estaria dormindo e nem ao menos tentando, só por acreditar que não era possível para alguém como eu.

Talvez eu nunca trabalhe para uma gigante da tecnologia. Talvez eu nunca faça nada memorável e brilhante. Talvez eu nunca realize o sonho de mudar a vida de alguém com o meu trabalho.

O que eu sei é que não quero deixar essa ambição dormir nunca mais e que investir tempo para tentar ser melhor a cada dia nunca é em vão.

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